Irresponsabilidade Social
Parece estranho, mas quando pensamos em solidariedade logo nos vem à mente os projetos grandiosos, os prêmios Nobel Gandhi e Madre Tereza de Calcutá e outros grandes nomes, que como dizemos “fazem história”. Estamos tão acostumados a projetar as obrigações para “aqueles que estão destinados à causa de morrer pelos outros” que não vemos o quanto estamos nos anulando.
Se mirássemos o lado capitalista da coisa, veríamos que nossa responsabilidade social ficou restrita às ações de marketing (e digamos de passagem, nos é bastante cômodo). Hoje é tão simples “ajudar”, e tal ato tornou-se um câmbio: “comprando tal produto você estará ajudando as criancinhas desnutridas,“adquirindo esta mercadoria você contribui para a instituição X”. É incrível, mas a lógica do “toma-lá-dá-cá” se difundiu também no campo social, afinal, nada melhor do que “unir o útil ao agradável”. Consumo e Solidariedade, dois conceitos tão distintos passaram a caminhar lado a lado, e, o que antes era visto com cautela agora é encarado com naturalidade. Consumir é sinônimo de solidarizar-se, um artifício perfeito e econômico, bem adaptado às exigências de mercado.
A cada dia que passa ficamos mais anestesiados, e graças a essas “ações sociais” nossa consciência paira tranqüila. “Já fizemos a nossa parte”, e o que é melhor, sem despender de grandes quantias (sem retorno) do nosso merecido ordenado. Nossa conveniente cegueira nos convence de que agindo assim somos politicamente corretos. O que não percebemos é que nossa ação se limita a financiar a “solidariedade de outros”, e que muitas vezes, apadrinhar financeiramente projetos, é um subterfúgio para não encararmos a realidade ao nosso redor.
A Solidariedade é uma relação de reciprocidade, mas ainda não nos convenceu de seu retorno. Afinal trata-se de um investimento arriscado, e de retorno duvidoso se considerarmos nossa escala de valores. Que valor tem a dignidade de uma pessoa que não conhecemos? E o sorriso de uma criança que não geramos? Realmente não são retornos “dignos” de investimento, e à primeira vista parece-nos de rentabilidade zero. E é baseado nessa análise que fundamentamos nossa escusa em relação aos “seres predestinados”; a tarefa de uns é morrer pelos outros, e quanto a nós, bem... nós aderimos à grandes causas comprando camisetas de grife...responsabilidade e tanto, destinada aos seres “normais”.

